24 de fevereiro de 2012

Eu em versão engenheira civil



Há alturas na vida em que estamos em construção, como se fossemos uma casa em obras. Tal e qual: a estrutura base mantém-se, isto é, a placa, que é como quem diz o corpo e todas as nossas limitações e capacidades físicas e em alguns aspectos psicológicas, os valores-base (aqueles que nascemos a ouvir falar-lhes das vantagens e a observar a qualidade de tal atributo nos outros, supostamente deveria ser no nosso pai, na nossa mãe ou nos que de nós fizeram gente) e algumas características pessoais, que por mais voltas que se dê, são nossas e estão "inscritas no nosso ADN", irredutíveis amigos, irredutíveis. Conheço-as bem. Conheço. E tudo o resto, que é o todo-em-mudança-do-primeiro-ao-último-dia, está "em obras", guardamos as recordações, os quadros, as folhas e canetas com a história da gente, os remendos das calças de ganga ou as lições que estão coladas em post-it na alma e andamos à estalada com o orgulho, aos murros com a comodidade/preguiça (coisas tão feias, meu Deus) e temos a guerra instalada no lado esquerdo do peito. É altura de mudar. Dizem que a felicidade é a harmonia entre o que pensamos, dizemos e fazemos. Eu concordo. E quando uma destas coisas, efectivamente, não está em harmonia com as restantes é riscar os dias no calendário para a revolução começar. É altura de mudar. É difícil admitir, de que é feita a nossa vida (?), o nosso carácter (?) e a pessoa que formamos diariamente (?), especialmente quando o fazemos a sós, lá no quarto à noite ou nas cinco horas semanais de viagens, enquanto a música nos chega ao coração e os olhos não descolam da janela, do sol, da terra, do azul-céu, da estrada ou apenas da escuridão da noite, do absoluto e do nada. É difícil quando sozinhos caminhamos na direcção que nos parece ser a mais parecida com nós mesmos, e de repente, o primeiro copo da pirâmide de champagne caí, e todos os outros, a seu tempo, vêm caindo por aí abaixo, e pensamos: estou a fazer tudo mal, desviei-me, lá eu sei como, quando e porquê, do caminho que estava a seguir, da direcção que tinha traçado para mim. É nessa altura que nos convencemos que é hora de fazer obras cá em casa. É A Hora! Lá esvaziamos todas as divisões e, na garagem ficam em espera as tais recordações, os quadros, as folhas e canetas com a história da gente, os remendos das calças de ganga ou as lições que estão coladas em post-it na alma, das quais não nos separamos "nunca". Até o quarto, o nosso querido, tão querido quarto é esvaziado e, sentimos-nos vazios... Depois de tudo esvaziado, há que deitar abaixo as paredes, tudo o que nos prende, tudo o que nos limite, tudo o que nos determine o horizonte, e estar livres, e conquistar a nossa própria liberdade que não é sinónimo de bem-estar (desengane-se quem julgue que sim, a liberdade é muitas vezes reflexão e solidão). Reflectimos, choramos, esperneamos, para deitar tudo de mau fora, para nos libertarmos, libertarmos até ficarmos limpos, quase puros. Enchemos o saco do lixo preto e vamos até ao contentor mais próximo para nos livrarmos rapidamente de parte da nossa vida, antes que nos dê uma crise de sentimentos e deitemos tudo a perder. Esperamos, há sempre um tempo de espera, por nós e pelos outros, pela vida. O tempo é uma dádiva que nos foi concedida. Eu acredito nisto. A espera para mim é das coisas mais difíceis que, as pessoas como eu, têm que enfrentar. Assim que nós vazios, livres e quase puros, quase tranquilos, quase serenos, estamos prontos (!): começa o melhor, o mais aliciante, a aventura, a verdadeira aventura desta vida, fazer de nós aquilo que quisermos ser. Começam as obras e os debates, a assembleia da alma reúne e toma decisões. Mais uma vez, voltamos a construirmos-nos, devagar, sem pressa, o que interessa é o caminho que fazemos não o tempo que demoramos a lá chegar.

Estou com sérias dúvidas, acho que atropelei algumas etapas, fui depressa demais nestas, esperei por outras, não fiz as pausas no timing certo. Acho que a meio, vou começar (outra vez) de novo, quero fazê-lo bem. Quero ser «um filha da puta a menos». Quero «ser a diferença que quero ver no mundo». Quero Ser. Mas há que ter coragem, palavra-chave neste trabalho civil. Coragem! Não vou ter medo. Não vou ter medo. Não vou ter medo! (mantra dos próprios tempos)


*sei de erros cometidos na coesão frásica e sintáctica, do uso de redundâncias, de repetições e de clichés mas fi-lo para uma melhor expressão emocional.

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